Clínicas de Vacina

O que acontece quando a cobertura cai

Por Redação do Clínicas de Vacina. Publicado em (revisão da mesma data).

Cobertura vacinal é a proporção da população alvo que recebeu as doses previstas de uma vacina. Quando esse número fica abaixo do necessário para manter uma doença sob controle, o risco de ela voltar a circular aumenta, e o Brasil já viveu esse cenário na prática.

Doenças eliminadas dependem de cobertura mantida

Segundo o Informe Técnico do Programa Nacional de Imunizações, a incorporação de vacinas ao Calendário Nacional levou à eliminação, no país, da poliomielite (em 1994) e do tétano neonatal como problema de saúde pública (em 2017), além da rubéola e da síndrome da rubéola congênita, sem casos desde 2008 e 2009. O mesmo documento observa que esse controle "depende da manutenção de elevadas coberturas vacinais", e que a queda nesses números "coloca o País sob o risco de ocorrência de surtos de doenças previamente controladas".

O caso do sarampo

O sarampo é o exemplo mais direto dessa relação, registrado pelo próprio Ministério da Saúde: o Brasil recebeu a certificação internacional de eliminação do sarampo em 2016 e não teve casos confirmados em 2016 e 2017. Em 2018, o intenso trânsito migratório e turístico, somado às baixas coberturas vacinais, contribuiu para a reintrodução do vírus no país, e em 2019, com casos endêmicos por mais de 12 meses, o Brasil perdeu a certificação de eliminação. O mesmo informe registra que, em 2020, 21 unidades federativas tinham registrado casos de sarampo, com 4 delas ainda em surto ativo naquele momento, e um total de 8.202 casos confirmados até outubro daquele ano, a maioria no Pará.

Outras doenças imunopreveníveis seguem como risco

O mesmo documento cita a febre amarela como exemplo de doença que, por ser uma zoonose, não é passível de eliminação: pessoas não vacinadas expostas a áreas de circulação do vírus seguem em risco, independentemente da cobertura vacinal alcançada em outras regiões. Entre julho de 2019 e junho de 2020, o Ministério da Saúde registrou 976 casos humanos suspeitos de febre amarela, dos quais 19 foram confirmados.

O que a queda de cobertura significa em números de pessoas

A escala do problema aparece nas estimativas oficiais de crianças com doses em atraso: o Informe Técnico do PNI calculou, com dados de 2020, mais de 5,3 milhões de crianças menores de 5 anos com a dose de febre amarela em atraso, além de números na casa dos milhões para outras vacinas do calendário infantil, como pentavalente, pneumocócica e poliomielite.

Por que crianças pequenas são o grupo mais vulnerável

Boa parte das doenças imunopreveníveis do Calendário Nacional afeta com mais gravidade crianças pequenas, cujo sistema imunológico ainda está em formação e que ainda não completaram o esquema básico de vacinação. Isso explica por que a queda de cobertura costuma gerar mais preocupação quando concentrada nas vacinas da primeira infância: um grupo de crianças com esquema incompleto, vivendo próximas umas das outras em creches e escolas, é justamente o cenário em que uma doença como o sarampo, altamente transmissível, encontra terreno para voltar a circular.

O caminho de volta

A resposta a esse cenário passa pela recuperação de esquemas atrasados, individualmente e por campanha, como descrito em por que a cobertura vacinal caiu no Brasil e em o que é campanha de multivacinação. Para saber a situação da sua cidade, veja como consultar a cobertura vacinal da sua cidade.

Reintrodução não é a mesma coisa que doença endêmica

Quando um país chega à eliminação de uma doença, isso significa que ela deixou de circular localmente, mas casos importados continuam podendo acontecer, trazidos por alguém que se infectou fora do país. Um caso importado isolado, identificado e controlado rapidamente, é diferente de uma reintrodução com transmissão sustentada por mais de 12 meses, que é o critério usado internacionalmente para considerar que o país voltou a ter a doença como endêmica, como ocorreu com o sarampo no Brasil em 2019. A cobertura vacinal alta é o que impede que um caso importado isolado se transforme em circulação sustentada.

Este conteúdo é informativo, elaborado a partir de fontes públicas listadas acima.

Fontes

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